quarta-feira, 24 de março de 2010

Nas páginas do jornalismo canalha: A Big Mídia e a “invisível” greve dos professores do magistério paulista


Explícita má-fé, irresponsabilidade social ou delinqüência política? Por que o Brasil não é uma democracia de fato? Seja pelos índices socioeconômicos de desenvolvimento desigual entre as diversas regiões ou lamentáveis índices educacionais, há muitas razões para compreender o estágio das crises sociais da nona economia do mundo capitalista (ou melhor, dizendo, das nações ocidentalizadas). Todavia, aqui nos pautaremos pela questão da democratização ao acesso da informação, ou seja, como não é possível falar em democracia plena num ambiente cercado pelo monopólio da “Big Mídia”.



De norte a sul do país, a concessão governamental para abertura de rádio e televisões são subprodutos que atendem apenas aos nefastos interesses político-eleitorais. Em São Paulo, eixo-motriz do desenvolvimento econômico brasileiro, a informação jornalística é monopolizada por apenas quatro família da Big Mídia, os complexos editoriais das agências Estado, Folha, Globo e Abril. Praticamente tudo que circula de informação na mídia impressa e também no conteúdo dos portais de internet tem de forma direta ou indiretamente um vínculo “carnal” com pelo menos uma destas Big Mídia. Já na televisão, a Globo dita a pauta jornalista e a grade de programação que é seguida pelas demais concorrentes. Até mesmo os horários de partidas de futebol ficam reféns dos interesses da grade horário da rede Globo.



Vejamos o exemplar caso da greve “invisível” dos professores do magistério paulista. Em busca de melhores condições de salário e dignidade da profissão, duas grandes manifestações representadas pela assembléia dos professores nos dias 08 e 12 de março de idêntica ação: ocuparam as duas faixas da mais importante avenida do capitalismo brasileiro, a garbosa Av. Paulista, e posterior passeata por todo o trecho da Rua da Consolação até o desembocar na região onde se localiza o prédio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), na Praça da República. Segundo o Sindicato dos Professores (APEOESP), a estimativa entre as duas passeatas, 12 e 19 de março, giraram entre 40 mil e 60 mil pessoas, respectivamente.



Todavia, o que foi publicado, por exemplo, na Folha de S. Paulo? Vejamos. Na edição estampada do dia 13/03, pautada pelos supostos números da Polícia Militar, a estimativa de professores presentes no ato no dia anterior não passava de 12 mil pessoas. Somente nas páginas internas, a FOLHA exibiu o número da APEOESP, 40 mil pessoas. O grupo Abril cujo destaque do seu jornalismo é a tucana e neoliberal Revista Veja, a respeito da manifestação do dia 12/03, registrou em seu portal de internet que apenas 12 mil professores estiveram presentes na assembléia feita no vão livre do MASP. O portal da Revista Veja cedeu espaço apenas para a versão oficial: “A Secretaria [SEE-SP] destacou que os grevistas terão desconto salarial relativo às faltas. Para o órgão, não há justificativa para a reivindicação de 34% de aumento para os professores, ‘medida que custaria nada menos do que R$ 3,5 bilhões’”. Já o outro lado dos fatos, nenhuma palavra adicional.



No dia seguinte em nova assembléia dos professores no vão livre do MASP, na edição de 20/03 que estampou a candidatura do governador José Serra ao Planalto, a FOLHA, timidamente no meio da reportagem no seu “Caderno Cotidiano”, utilizou novamente os supostos cálculos da Polícia Militar de 8 mil participantes e cita um discreto comentário do número atribuído à APEOESP, 40 mil. Além disto, há uma pequena matéria com o título “Reajuste pedido é ‘impossível’, afirma Secretaria da Educação” e deu destaque para as palavras do Secretário da Educação, Paulo Renato, com sua contumaz indisposição ao diálogo: "a continuidade de um movimento esvaziado, inimigo da educação e que causa transtornos no trânsito [e a greve é de] explícito caráter político", fechando assim as palavras do secretário.



Não obstante, algumas perguntas se fazem necessárias no meio desta guerra numérica: supondo que os números contábeis sobre a participação dos professores nas assembléias sejam da Polícia Militar seja verdadeiros, onde os policiais aprenderam a fazer contas básicas de matemática? Será que usam a mesma contabilidade “surreal” para a contagem de presos de seus depósitos carcerários de humanos? No sábado, para ter uma idéia da contabilidade da Polícia Militar, uma insólita manifestação na Praça da Sé de grupos reacionários anti-aborto, “segundo cálculos da PM”, foi de 3 mil participantes. Oras, se um grupelho reacionário em torno da Igreja da Sé levou 3 mil pessoas, qual seria então o número de pessoas que ocuparam as duas faixas da Av. Paulista e desceram a Rua Consolação? Oito mil, doze mil? Certamente há uma estimativa no mínimo muito estranha da Política Militar que precisa ser discutido e que foge do escopo deste artigo.



Em “O Jornalismo Canalha” (Ed. Casa Amarela, 2003), José Arbex Jr. denunciou o jornalismo inconseqüente, delinqüente e vassalo das elites sendo realizado pelos “escribas do poder”. Cabe ressaltar, que o bom jornalismo diz que pelo menos deve ouvir os dois lados dos fatos decorrentes da notícia. Todavia o leitor interessado no assunto da greve nos professores do ensino público do Estado de São Paulo pouco poderá encontrar a respeito, quanto muito só encontrará uma única versão que é a do governo Serra. Naturalmente, as questões sobre o movimento que “atrapalha” o trânsito foi exaustivamente comentado, como se São Paulo somente ocorresse congestionamento em sua inflada malha viária em dias atípicos de mobilizações sociais, como que ocorreu nos dias que aconteceram às assembléias dos professores.



No intuito de permanecer no ostracismo, toda uma enorme mobilização de professores passou despercebida da Big Mídia, como se fosse algo invisível. Não mais do que algumas notas isoladas e geralmente em tom de crítica pelo fato de professores “atrapalharem” o transito! Para quem participou ou pode observar pessoalmente o movimento dos professores nessas passeatas, certamente causou uma enorme estranheza e perplexidade nas discretas notas dos jornais. Para quem não estava presente, a visão que foi uma meia dúzia de “desocupados” contra o governo cujo único objetivo seria pateticamente atrapalhar o trânsito (mensagem essa que viria de encontro com a afirmativa zombeteira de Serra que costuma recitar aos quatro cantos que o movimento grevista não passa de 1% da categoria). Certamente, alguma coisa está “fora da ordem”.



Para quem busca acompanhar o desenrolar da greve do magistério paulista pelos jornais e principais portais da internet, claramente fica desinformado ou simplesmente entende que não existe tal movimento. A exceção é feita aqui ou acolá por algumas notas das habituais falas em tons sarcásticos de Serra, tais com: “o movimento [dos professores] é pequeno e que vai contra as coisas boas [da SEE-SP]” ou ainda como título da matéria, “Greve dos professores não pegou, graças a Deus” (Agência Estado, 12/03). Além da publicação das conhecidas onomatopéias tucanas do governador, tais como: "Dizer isso é trololó", negando alterações na sua agenda devido a manifestações dos professores no Portal da Revista Veja, 18/03. Mais uma vez, o Big Mídia se confunde com o Diário Oficial, e jornalismo que deveria se pautar pelo tom crítico e investigativo destas agências se torna apenas um mero reprodutor da vontade governamental. Obviamente, nada deste processo é à toa ou oriunda de uma lastimável “incompetência” dos jornalistas destas empresas.



Não é de estranhar a fascistóide postura do jornalista Gilberto Dimenstein, colunista e participante do comitê editorial da FOLHA, que destila em sua coluna sobre “educação” pérolas bisonhas entre tantos disparates de má-fé contra o professor da escola pública. Numa de suas postagens, Dimenstein afirmou que a greve dos professores seria “contra os pobres”, além de aclamar para uma inusitada “cegueira” dos pais “cujos filhos são prejudicados pela greve” e simplifica desta maneira a situação calamitosa da escola pública: “O resto é cegueira. Inclusive dos pais que não se revoltam contra o sindicato” (Coluna Pensata, Gilberto Dimenstein, 18/03).



Voltando ao Portal da Revista Veja, temos mais uma pérola do fascistóide editor da revista e tucano de carteirinha, Reinaldo Azevedo, conjectura no seu blogue as causas da greve dos professores do magistério de São Paulo: “Não basta dizer que a greve da Apeoesp (e não dos professores) — com a sua pauta obscurantista e contrária à qualidade na educação — é tocada pelo PT. É preciso que fique claro que ela é comandada pelo pior do PT, se é que se pode falar assim”. Ainda não contente, o tucano jornalista e editor da Revista Veja prossegue: “A reivindicação salarial não passa de cortina de fumaça para uma tarefa que, parece-me, é de alcance puramente eleitoral”. (Blog Reinaldo Azevedo, 21/03). Será que Azeredo não teve a mínima decência de conhecer um holerite de um professor do ensino público do Estado de São Paulo? Naturalmente, de forma sorrateira diga do jornalismo canalha, como bom tucano e a serviço do seu partido, Azeredo faz coro com a SEE-SP cuja meta é criar mais entulho ideológico neoliberal na Educação pública paulista e jogar a opinião pública contra os professores.



A má-fé é a tônica das coberturas jornalísticas pela Big Mídia no que tange particularmente a cobertura sobre os movimentos sociais, salvo raríssimas exceções. Considerando nefastas figuras como Dimenstein e Azeredo, é muito simplista e cômodo para supostos jornalistas burocráticos a serviço de interesses meramente de grupos de poder econômico, se sentarem em suas confortáveis cadeiras e desfrutando a leveza aprazível do ar-condicionado, utilizar de sua influência “jornalística” para atacar os professores e sequer ter a preocupação de visitar a realidade de uma unidade escolar (claramente, excetuando as escolas “maquiadas” da propaganda oficial).



De braços dados com o governo de Serra, a Agência Estado, estampa em seu portal na internet a promessa de pagamento de bônus para os professores e publicado na versão impressa de 23/03: “SP pagará bônus salarial a 176,5 mil professores” (Agência Estado, 22/03). O “jornalismo chapa branca” da Agência Estado ainda acrescenta no subtítulo da matéria: “Mais da metade dos docentes vai ter benefício superior a R$ 2,5 mil; valores serão depositados na quinta”. Ao longo da matéria “explicando didaticamente” a suposta distribuição da falaciosa política de bônus aos professores, desta maneira, o leitor não sabe se esta lendo páginas do “Diário Oficial do Estado” ou informativo da SEE-SP. A matéria ainda não perde a oportunidade de atacar sutilmente os professores ao citar a meritocracia segundo o entendimento da SEE-SP e punição via o não-pagamento de bônus a partir das faltas dos docentes: “Pelo programa, o professor que consegue que seu aluno tire uma nota mais alta na prova aplicada pela secretaria recebe bônus salarial. E, como o valor está ligado também à presença, às faltas seriam coibidas - são 12 mil diárias na rede”. E assim se pauta o jornalismo “crítico” da Big Mídia!



Sem maiores ilusões, a verdade é tingida da cor de cada versão. O jornalismo canalha salientado por Arbex Jr. utiliza-se seu portfólio para dirimir uma versão que não prima pela clareza ou honestidade dos fatos. A guerra de informações é travada de forma monstruosamente desproporcional na mídia brasileira. A Big Mídia monopoliza todo o acesso a informação, além de sua divulgação e distribuição. As incipientes e isoladas mídias possuem um poder muito pequeno de participação neste processo, mesmo apelando para distribuições alternativas de conteúdos, como pequenos jornais de curta duração e baixa tiragem ou sites de internet. A saída para o impasse e dominação da Big Mídia não é trivial. Passa necessariamente pelo escancaramento da liberdade de acesso a informação e de grupos jornalísticos mais comprometidos com as causas sociais e menos aos vícios do poder do capital. Tal processo é lento e de difícil execução uma vez que de acordo com seus interesses de mercado e poder, a Big Mídia é uma das mais vorazes patrocinadores das campanhas eleitorais ao ponto de expor explicitamente nomes de candidatos, programas e idéias para a população.



De forma romântica, ainda há aos que acreditam no poder de livre-arbítrio da população como um conjunto hegemônico e autocrítico. Todavia, a hipermodernidade que desenha as cores exóticas da sociedade do consumo é um paradoxo permanente, quanto maior o oceano inflado de informações, menor é a capacidade de construção do conhecimento autônomo e reflexivo. A resistência se dará necessariamente através de um conjunto de mídias independentes e de ações coordenadas disposta a duelar exaustivamente contra este processo avassalador de monopólio da informação. Novas práticas devem surgir como forma de construção de um contra-poder que prime pela defesa dos movimentos sociais e da própria idéia de democracia como um bem de valor universal para uma sociedade justa, igualitária e livre das amarras do despotismo econômico.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Em Busca de Reconhecimento e Identidade: A Greve na Educação Pública no Estado de São Paulo


Para que a mobilização atinja o êxito necessário, é fundamental a adesão massiva dos professores nesse processo. Naturalmente, ampliando o número de participantes que engrossa a fileira da paralisação, o governador José Serra e seu fiel amigo e secretário da Educação, Paulo Renato, não terão como continuar a saraivada de deboches irresponsáveis contra a categoria docente. Serra vem praticando o jogo do “faz-de-conta que não existe” com a greve dos professores do estado de São Paulo e se recusa peremptoriamente a negociar. Um cínico teste de resistência que o governo aplica para medir a capacidade de mobilização dos professores.


A grande participação dos professores na assembléia do dia 12 de março mostrou a face da indignação da categoria. É pertinente ressaltar que somente a mobilização dos professores e o esclarecimento da população sobre a pauta de reivindicação da categoria que poderá garantir fôlego para continuar a manutenção da greve e sua crescente ampliação. Sublinha-se ainda que muito além de uma óbvia reivindicação salarial, a luta urgente e inadiável deverá ser por um novo modelo de Educação Básica.


A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP) assim como o próprio governador Serra zombam dos professores dizendo que a greve é “política” e realizada por um punhado de descontentes. Como se não fosse “político” o descaso irresponsável dos tucanos com a Educação. E como não ser “político” o ato natural de gritar pela sobrevivência? Como não é de causar estranheza o falso modelo de democratização da informação aonde toda a grande mídia vem apoiando as nefastas políticas neoliberais que estampa passivamente em seus jornais e noticiários televisivos a versão governamental sem os mínimos critérios que mereceria qualquer denominação vulgar de “jornalismo democrático”. A deturpação esboçada em perdulárias campanhas publicitárias do governo falseia a realidade e logra a boa-fé e desinformação de números expressivos da população.


Obviamente, toda grave é profundamente política. Assim como todas as decisões dos atores sociais possuem raízes essencialmente políticas. Portanto, todo movimento político não é passível de terceirização ou espectador das decisões na cômoda arquibancada. Cada professor é um militante nesta batalha pela dignidade profissional e auto-estima de sua própria condição humana.


Toda alienação permite a virulenta eclosão de espasmos ininterruptos de opressão, despotismo e barbárie. É muito fácil fingir a aneurisma profissional, incutir um olhar rasteiro para os lados ou recitar os velhos chavões da passividade irresponsável do inútil reacionarismo. A alienação engrossa a fileira da miséria humana. Enquanto muitos professores de forma ingênua ou resignada acreditam que seja “normal” trabalhar em condições subumanas, violência cotidiana e precariedade alarmante com uma remuneração cada vez mais irrisória e defasada, o sistema educacional sistematicamente gangrena e apodrece. Para o professor que se julga “profissional”, cabe participar do cenário de decisões de duas distintas saídas: submeter à ordem da calamidade educacional patrocinada há anos por sucessivas gestões acéfalas do PSDB ou lutar por reconhecimento de sua própria identidade e sua condição de existência.


Um movimento grevista não é o fim, mas tão somente um meio de lutar pela construção de um espaço reivindicatório de sobrevivência diante da arbitrariedade. Infelizmente, diante do impasse promovido pelos governos do PSDB e a notória falta de compromisso histórico com a Educação pública no estado de São Paulo, não há outro meio de pressão democrático, digno e persuasivo a não ser a continuidade da greve. Uma greve cujo objetivo é a sobrevida da categoria docente em prol de um novo modelo educacional. Sem direito à recuos ou desistências, a ordem é a ampliação do poder transformador que somente a mobilização popular pode construir no interior de qualquer sociedade.

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Assembléia Estadual dos Professores
Sexta-feira, 19 de março – 14 horas – Vão Livre do MASP



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Saiu no Jornal “Agora” em sua edição eletrônica:

18/03/2010

Greve de professor afeta quatro em dez escolas

Thiago Braga, Agência Folha e Folha de S.Paulo
do
Agora

A Apeoesp (sindicato dos professores da rede estadual) realizará amanhã uma assembleia na avenida Paulista (região central de São Paulo) para decidir se os professores continuarão ou não a greve iniciada na semana passada.

A paralisação no Estado começou no dia 8. A reportagem fez ontem um levantamento da greve. Foram consultadas 108 escolas estaduais da capital e das regiões de Ribeirão Preto (313 km de SP), Campinas (93 km de SP), Jundiaí (58 km de SP) e São José dos Campos (97 km de SP) escolhidas aleatoriamente. Desse total, em 66 escolas todos os docentes trabalharam normalmente (61,5%).

Outras 42 unidades foram afetadas de alguma maneira pela greve (38,5%) --em nove nenhum professor trabalhou (8%) e em 33 uma parte não deu aula (30,5%).

Ontem, o governador José Serra (PSDB) foi hostilizado por grevistas.

Funcionários de escolas dizem que foram orientados pelas diretoras a substituírem os grevistas por professores temporários para evitar que as crianças fiquem sem aulas.

O principal pedido dos grevistas é um reajuste salarial de 34,3%. De acordo com o sindicato, a tendência é que a greve continue. "Até hoje não fomos recebidos para discutir a questão salarial", diz a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Noronha. O governo diz que o movimento é político e que apenas 1% dos professores aderiram à greve.


FONTE:
http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u708500.shtml

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Parte 4 de 4: O “Processo Imbecilizador”: A humilhação docente como instrumento de política neoliberal da Educação Básica em São Paulo



4. A emancipação humana contra a barbárie



“A liberdade não é mais que a afirmação de si mesmo”.
(George W. Friedrich Hegel)




A lógica do capital é a sistemática usurpação da condição humana. Na amálgama do capitalismo, a vida nada mais é do que um usufruto da exploração do trabalho alheio por parte das imperativas forças de produção. A educação pública inserida na lógica do mercado condiciona no aparelhamento da escola no patético papel de campos de concentração educacional, onde professores e demais funcionários desenvolvem papéis de feitores desta engrenagem de moer indivíduos.


A premissa é simples: rico paga, pobre pasta. Traduzindo a sintética sordidez capitalista à brasileira no âmbito educacional: quem tem melhor recurso econômico, paga escola privada para seus filhos (fixado no inconsciente social onde as “privadas” gozarem de melhor qualidade – e necessariamente não se trata de um fato realístico), que não tem recurso, aventura seu filho na escola pública! A lógica liberal trata a educação pública como um entulho social perdulário, servindo apenas para adestrar alguns trabalhadores “mais capacitados” e descartando o refugo humano desnecessário para as esteiras de produção. Todavia, nenhuma sociedade que aufere para si o rótulo de “humanidade” deve aprisionar seus filhos em cubículos de concreto e espaços estéreis de desenvolvimento numa inútil jornada de tempo. Nesta orquestração do “processo imbecializador”, resta pateticamente aos professores a tarefa de manterem minimamente a ordem e servirem como sentinelas para guardar a inspeção do “período escolar”.


É possível fazer uma pertinente analogia. A diferença entre professores da escola pública e agentes carcerários do sistema penal é que os primeiros ainda procuram se sustentarem na ilusão da “quintessência docente” e como um messias pedagógico, alheio à devastação à sua volta, buscará salvar algumas almas mediante seu toque de Midas. Já o segundo, suas supostas ilusões cessariam desde os primeiros momentos que adentra as agruras do recinto do sistema penitenciário.


Sendo repetitivo ao ponto de não temer cansar o leitor: a educação pública e de qualidade não é e nunca foi uma prioridade de governo no Brasil. O resultado é anos de inchaço, ineficiência, sucateamento e condições precárias nas escolas públicas. Simplesmente, grande parte das escolas sobrevive do ponto de vista de sua logística pela mendicância de seus alguns gestores e professores mais apaixonados pelo seu oficio ou simplesmente a unidade escolar é abandonada à sua própria sorte (e geralmente adotada pelos traficantes de droga locais). O caso do estado de São Paulo é exemplar, uma vez que se trata do principal pólo econômico do Brasil e América Latina. Apenas como intuito de exemplo de assimetria de recursos e prioridade governamental, somente esta semana, através do BNDES liberou um aporte de recursos de R$ 1,2 bilhão para investimento apenas para a uma única empresa transnacional de capital majoritariamente alemão, a Mercedes-Benz, a ser aplicado na fábrica situada na cidade paulista de São Bernardo. Claro, sempre o mote “politicamente correto” é a geração de empregos, então vamos lá: no caso específico dos recursos para a Mercedes-Benz a projeção será de gerar menos de dois mil empregos diretos (numericamente, um pouco mais de indivíduos de uma única unidade escolar)! Mais uma vez, a Educação não é uma prioridade de investimento e tampouco de governo. Exceto por algumas as linhas de crédito para encher bolso de empresários cujo mote é rapinagem imediatista do campo do Ensino Superior, não há uma única linha de crédito para a promoção da Educação Básica. O “S” do BNDES é “social” apenas na retórica da cabeça de seus gestores. A lição das “vozes racionalistas” do mercado que ecoa no governo é simples: para a economia, tudo é investimento (com o capitalismo calcado no erário da nação, claro!), para o social, o mero pragmatismo. Resultado: o desenvolvimento disforme, concentrador de renda e fôlego curto (exceto para os que acreditam que viver a labutar crédito em financeiras se endividando rigidamente é renda do trabalhador!).


O burocrata que passa a trabalhar dentro da administração pública é geralmente formado em faculdades moldadas com currículos mimetizados em universidades estadunidenses, arrotam “business to business” e não entende o desenvolvimento econômico como um processo intrinsecamente social. Já a classe política é um emaranhado de interesses e tentáculos corporativistas cuja ação se baseia na letargia administrativa, a lascívia sedutora da corrupção e as tentações para as mazelas contra o patrimônio público é quase uma prioridade. Infelizmente, grande parte do que restou da chamada “esquerda” também sofre de uma amnésia sistêmica no que tange as propostas para Educação. Em geral, em muitos discursos de uma esquerda “rósea” não é possível ver alguma luz no túnel de suas propostas ou programas para o campo da Educação, além de algumas triviais e inócuas retóricas ou irônicas ações mimetizadas de programas neoliberais (exemplo disto são os sete anos da gestão petista no Ministério da Educação do Governo Lula cujos avanços foram exaustivamente muito tímidos)! Diante do deserto fratricida e sem vigor ao combate da sanha assassina dos programas neoliberais, a Educação Básica vem sendo paulatinamente corroída por políticas neoliberais cujo objetivo é lixo do processo social formando gerações de seres humanos desvalidos, desesperançados e fadados ao se aprisionar no acúmulo de fardo humano entre guetos, favelas e palafitas.


Refletindo e fazendo uma leitura livre do filósofo alemão Jürgens Habermas, até mesmo dentro de uma democracia estabilizada, são necessários fortes debates e até mesmo uso da força para garantir direitos básicos aos cidadãos para continuar pulsando o ideal de cidadania dentro do modelo capitalista (ou seja, uma “caricatura de cidadania”). No caso da semidemocracia brasileira, a situação é de extrema preocupação. Nesta esteira, é fundamental a ruptura do processo de endogeneização da benevolência messiânica da tarefa docente para reconstruir um caminho de restauração da dignidade da profissão. Culpar as mazelas do Poder Público é uma tarefa razoavelmente fácil, porém sob o ponto de vista da ética, não é possível servir como instrumento do processo de articulação da barbárie por parte de irresponsáveis políticas neoliberais.


O que dignifica o ser humano não é o acumulo narcíseo de bens materiais, mas a capacidade suplantar obstáculos e melhorar a sua condição de mundo. Como assinala István Mézáros (2005): “[...] é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente”. Uma escola que não tem como proposta edificante a emancipação humana estará inevitavelmente a ser apenas mais um esboço de um tétrico campo de concentração.


Neste ínterim, o resgate da profissão docente vai muito além da mera luta por miúdos centavos no holerite. O processo de construção do sujeito histórico esta na raiz da intervenção que o homem é faz dentro de sua arquitetura de mundo. Aproxima-se o dia que o acúmulo de derrotas cria estafa e somente uma vitória valorosa poderá saciar a vontade de continuar vivo dentro do processo. O chamado para a batalha é o clamor para a própria sobrevivência.




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Referências bibliográficas ( Reunião das quatro partes):

BOTTON, Allain de. Desejo de status. São Paulo: Rocco, 2005.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Textos sobre educação e ensino. São Paulo: Centauro, 2004.

MÉSZAROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

PLEKHANOV, Giorgui V. O papel do indivíduo na história. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

Parte 3 de 4: O “Processo Imbecilizador”: A humilhação docente como instrumento de política neoliberal da Educação Básica em São Paulo


3. O chamado para a “jihad educacional”




Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.

(Johann Goethe)



A situação da rede pública estadual de ensino só não é pior porque já se tornou impossível piorá-la! O fundo do interminável fosso de Educação Básica em São Paulo já foi atingindo com méritos tucanos. O resta ao docente dois caminhos antagônicos que ele deverá optar: continuar na servidão da via crucis ou ser mais um “mujahid” para a “jihad educacional”. Uma analogia com o Islão é pertinente dentro do atual quadro de desespero que se encontra a Educação Básica e, aqui, se fará um exercício de reflexão. A palavra árabe jihad (literalmente se traduz por “luta”) significa linguisticamente “esforço” ou “empenho” (tal termo pode ser usado por muçulmanos ou não-muçulmanos) e não se trata de uma insana “guerra santa” (como preconceituosamente foi taxada pelos colonizadores europeus durante a Idade Média em batalhas religiosas contra os seguidores do Corão e do Profeta Maomé)[1]. Desta maneira, a Jihad seria uma luta por vontade pessoal da busca e conquista da fé. Logo, o mujahid é o seguidor da Jihad. De forma análoga, cada professor consciente de seu papel social será um mujahid neste processo de luta contra a terra arrasada imposta pelas seguidas políticas tucanas de destruição da educação pública.



Agora, no mês de janeiro, em plenas férias do quadro docente, o governo implanta seu processo seletivo onde apenas 25% dos melhores colocados adicionarão alguns trocados ao seu provento mensal (isto é, para quem eventualmente conseguir atingir as megalomaníacas metas impostas no projeto). O primeiro passo para o eleitoral ano de 2010 é o boicote às débeis provinhas de promoção. Nenhum professor poderá dar aval para este descalabro neurótico promovido pela PLC 29/09 sob pena de estar contribuindo para a insanidade da dupla Serra/Paulo Renato. Cada professor que busque dignificar sua profissão não poderá sucumbir ao processo de submissão voluntária em trocas de algumas supostas migalhas. É pura ilusão acreditar irão conseguir superar os mirabolantes condicionantes exigidos pela PLC 29/09 para conquistar algum naco de salário pela via estúpida de provinhas. Ressaltando, aqui se trata de aplicação do processo de provas para a classe docente em pelo período de suas férias! Para alertar aos conservadores de plantão, isto não significa que os professores não são capazes de fazerem provas ou bobagens similares, mas sim que o projeto foi elaborado propositadamente para que os docentes de fato não consigam passar pelo processo seletivo.


Seria o projeto um emaranhado de imposições nefastas cujo objetivo é apenas humilhar os professores? Sim, sem dúvida! Bastaria uma simples leitura do projeto para entender seu caráter ordinário e inverossímil! Ademais, não se pode imputar aos docentes uma prova para ganhar nacos de aumento salário uma vez que fere de antemão a isonomia salarial da categoria. Cabe aos sindicatos, em particular a APEOESP, boicotar jurídica e política e fisicamente este tal processo de provinhas e buscar criar condições mínimas para o docente observar reflexivamente ao espelho suas condições de trabalho e sobrevida. A simples acomodação a este processo será a lápide que ornará o fim da categoria docente como norteadores e propulsores de lampejos de esperança social. Notadamente, o mero apelo ao desconhecimento dos fatos não servirá como alívio para a prostrada acomodação, como observa Guiorgui V. Plekhanov: “[...] os homens adquirem consciência de sua situação com um atraso maior ou menor em relação ao desenvolvimento das novas relações que modificam essa situação”.


Tal situação não se trata mais de como se chegou ao fundo do poço, mas como a classe docente sairá deste lamaçal histórico promovido pelas mentes disformes da SEE-SP e a ninhada tucana. Dizer “NÃO” para as benditas “provinhas” também é dizer um grande “SIM” para a dignidade do professor. Dizer “NÃO" para o processo imbecilizador da carreira docente é também dizer um fértil “SIM” para o olhar responsável do docente perante sua categoria e ambiente de trabalho. Dizer “NÃO” ao processo de destruição fascista da educação pública pela administração tucana é dizer um enfático “SIM” para uma à construção de um novo modelo de dignidade para a educação pública.


A luta pela dignidade e melhores condições de vida é a própria luta pela emancipação humana. Logo, cabe a todos os professores da rede pública a adoção do boicote sistemático e não contribuir para dar aval as tais “provinhas” do processo seletivo do governo Serra. O boicote é uma forma de resistência e luta em favor da escola pública e da dignidade da carreira docente.


Contra a opressão é necessário a sublevação. Destaca-se pertinentemente que para transformar a condição humana de sua passividade sistêmica é necessário fazer uma revolução. As palavras de Karl Marx endossam a argumentação: “a coincidência da mudança das circunstâncias com a atividade humana, ou mudança dos próprios homens, pode ser concebida e entendida racionalmente como prática revolucionária”. Portanto, a jihad educacional proposta é o único caminho para buscar a dignidade usurpada por anos de destruição do sistema educacional pela ordinária política tucana.



(Continua em: “4. Emancipação humana contra a barbárie”)




[1] No árabe o termo "guerra santa" pode ser encontrado para a expressão "harbun muqaddasatu" ou "al-harbu al-muqaddasatu".




Parte 2 de 4: O “Processo Imbecilizador”: A humilhação docente como instrumento de política neoliberal da Educação Básica em São Paulo




2. O “Processo Imbecilizador”: uma insana metástase


Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes. (Marquês de Sade)



O “Processo Imbecilizador” na rede oficial de Educação pública de São Paulo constitui numa das políticas mais cretinas e bem eficientes por parte de um Poder Público irresponsável e fascista.


Num primeiro momento, o objetivo é fragmentar e pulverizar a categoria docente atribuindo-lhe uma política salarial de “bônus” individuais (até hoje não existe sequer um regra minimamente racional para se entender o misterioso processo de sua concessão!). A política de bônus serve apenas como um “cala boca” e fragmentador da mobilização dos docentes. Como sua concessão é aleatória, quem “ganha” o bônus acaba, por sua vez, sendo cooptado na ilusão de ampliação financeira em seus proventos. Mais uma vez, a SEE-SP se aproveita do narcisismo primário dos professores e consolida sua política de desestabilização do funcionalismo público.


No segundo momento é responsabilizar os professores pelo caos na rede pública e deixar cada vez mais difíceis as condições de trabalho e sobrevivência dos docentes. É importante frisar sobre os sistemáticos processos de humilhação dos professores contratados (os chamados OFA/ACT) que a cada ano convivem com a insegurança de sua vida funcional. Para piorar, agora precisam passar por “provinhas” anuais estapafúrdias para conseguirem algumas aulas (outra humilhação de inicio de cada ano letivo é o processo de distribuição/atribuição de aulas para estes professores). Além de conviverem com o fantasma do desemprego sob a ameaça de não poderem obter aulas se não “passarem” nas provinhas.


O terceiro momento é terceirizar ou diluir as atribuições dos professores dentro de uma unidade escolar com projetos completamente alienados no interior escolar. Um exemplo é o midiático e perdulário projeto “Escola da Família”, onde a SEE-SP assume um papel lamentável de “cafetina educacional” para angariar jovens universitários da rede privada sem o menor preparo, motivação ou compromisso com a Educação para “atuarem na escola pública”. Naturalmente, o resultado é o mais ridículo, alienado e inútil processo de ilusão educacional à custa do dinheiro público, além contribuir para ampliar a desvalorização do quadro docente.


A humilhação continua no quarto momento, que consiste na oficialização do arrocho salarial da categoria docente e imposição sistemática de provinhas para conquistar um ilusório aumento salário. Destaca-se que nenhuma categoria de servidores públicos do Brasil passa por vexame humilhante e coube à alienação franciscana e beneditina do quadro docente assumir a serviçal postura de conceder aval as loucuras irresponsáveis dos gestores tucanos da SEE-SP. Como sucesso da campanha fascista da gestão tucana, a humilhação e a falta de amor-próprio por parte dos docentes é tamanha que é não raro que tais professores achem que é “importante passar por este tipo de avaliação”!


Merece breve menção outra maldição que impregna o inconsciente da classe docente: a tarefa sacerdotal da profissão ser vista como uma dádiva divina. Tal como o processo de construção do heroísmo messiânico descrito na Bíblia sobre o martírio de Jesus Cristo, que percorreu a ferro, escárnio e seguidas humilhações a via crusis (perfazendo as catorze estações) desde o Pretório de Pilatos até ser crucificado no Monte Calvário. Dentro dos limites do imaginário docente, cada professor carrega consigo a ambivalência do narcisismo docente e a sacerdócio divino. Nesta psicanálise metafísica do oficio docente, o professor se sente incapaz de sublevar com maior tenacidade as agruras que sobrecarregam suas costas no inimaginável submundo de seu pequeno campo de concentração educacional.


Escolas públicas depauperadas, arquitetura carcerária, política do silêncio, desqualificação docente, administração primitiva (operadas por diretores incompetentes, omissos ou corruptos, salvo algumas exceções) e aliando-se as condições subumanas de trabalho. Devido a uma variabilidade assimétrica originada pelo caos que é a rede pública estadual, cada unidade escolar poderá ter suas especificidades, porém as condições de precariedade é um fator comum a praticamente todas as escolas. Com uma política da “promoção automática” dos alunos imposta nos anos iniciais ainda na gestão tucana de Mario Covas, a ridicularização do trabalho docente ganhou maior desenvoltura ao ponto surreal de um aluno do final da Educação Básica, ou seja, o terceiro ano do Ensino Médio, sair com um diploma debaixo do braço e continuar ser apenas um analfabeto funcional!


(Continua em: “3. O chamado para a “jihad educacional”)

Parte 1 de 4: O “Processo Imbecilizador”: A humilhação docente como instrumento de política neoliberal da Educação Básica em São Paulo


1. Políticas neoliberais de punição e humilhação



"Humilhar é mais que odiar. A humilhação consiste em expor ao ridículo tanto quanto possível."

(Herbert Nier Koughron)



Se não bastasse a hecatombe educacional promovido pelas seguidas gestões tucanas à frente da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), o que mais poderia vir das cabeças esquizofrênicas de seus irresponsáveis gestores? O primeiro passo foi empurrar a culpa no passado (responsabilizar outras gestões e coisa desta bela natureza eleitoreira), depois é responsabilizar escancaradamente o professor pelo estágio de metástase que encontra o fosso educacional. Agora, a próxima etapa é unir a pirotécnica marqueteira e a humilhação total do profissional da educação. Bravo!


A política tucana de humilhação do funcionalismo público não é gratuita. No seu cerne busca sustentar uma ideologia de desmonte do Estado e tem grande suporte de apoio na mídia neoliberal. Logo, o governo Serra por via do seu amigo e Secretário de Educação, Paulo Renato de Souza, tira do bico tucano um magistral e midiático “Plano de Carreira do Magistério”. Possivelmente é o projeto mais ordinário dos últimos tempos feito pelo Poder Público para desmobilizar, estrangular e, por fim, destruir uma categoria de trabalhadores. E não se trata de apenas eclodir meros jargões políticos. Este processo merece muita atenção diante da condição de “assédio moral” que vem sofrendo a categoria docente.


O que consiste mais esta nova maldição imposta pelo governo tucano de José Serra? Há uma estratégia bem definida e razoavelmente amarrada que consiste na falácia do discurso da meritocracia impregnado de políticas neoliberais. Para seus defensores, a meritocracia separa de forma bem simplificada o “joio” do “trigo”, logo os “bons” seriam premiados e as “maçãs podres” seriam punidas. A meritocracia é o elogio ao “status” e as pessoas outorgadas pela “condição superior” que exclusivamente serão dignas dos louros e holofotes. Como assinala um aforismo de Allain de Boton (2005) sobre o caráter da estratificação na sociedade meritocrática: “os ricos é que são úteis e não os pobres” (ou de outra maneira mais sintética e popularmente narcísea “se eu consegui com meu ‘esforço’ por que o outro também não conseguiu?”). A meritocracia dentro de uma categoria profissional além de fazer uma clivagem corrosiva dentro dos seus quadros, alicerça uma condição avassaladora de hostil competição entre seus membros. Inevitavelmente, os resultados são desastrosos para quem emprega a política do código babilônico de Hamurabi sinalizado pelo clássico aforismo, “olho por olho, dente por dente”.


Pelo PLC 29/09 lançado pelo governo Serra e aprovado pela Assembléia Legislativa de São Paulo (ALESP) no final de outubro passado, os professores efetivos e estáveis serão submetidos a diversas provinhas mediante uma rocambolesca quinquilharia de regras e pré-condições básicas intercaladas por “faixas de promoção”. Para fazer propaganda em épocas pré-eleitoreiras, o governo Serra em conjunto com a grande mídia estampou nos quatro ventos que “um professor com curso superior poderá chegar a um salário final de R$ 6.270 (242% acima do piso), se conseguir atingir a quinta faixa. Se não conseguir as boas colocações nos exames, chegará a R$ 3.181 (73% acima do valor inicial)” (FOLHA DE S. PAULO, 21/10/2009). Logo, não seria difícil para a população concluir de forma abrupta que a classe dos professores dos seus filhos é bem afortunada e ao mesmo tempo “vagabunda” e responsável pela péssima qualidade de educação. Iludidos pela campanha midiática do governo Serra, não é estranho que alguns grupos de pais que se dizem “preocupados com educação dos filhos” se manifestem de forma agressiva e alienada contra os professores. Vale lembrar que o piso nacional é menos de dois salários mínimos mensais para uma jornada de quarenta horas semanais e no caso dos professores da rede pública da SEE-SP, o valor do salário-base (que incide cálculos previdenciários) é aproximadamente o mesmo para uma jornada básica pouco inferior a 30 horas semanais.


Na ocasião, esta fábula salarial prometido pelo governo foi estampada e anunciada em primeira página em todos os jornais de grande circulação de São Paulo, sem o menor questionamento das “regrinhas” no mágico plano da dupla Serra/Paulo Renato. Infelizmente, o senso crítico nem sempre é regra da prática docente, mas o estéril mimetismo do “dador de aulas” (resultado de anos da massiva política do aneurisma fascista tucana para a Educação Básica). Muitos professores aplaudiram entusiasticamente o plano, como a sendo a mítica “pedra da roseta” de sua convalescida profissão. Todavia, com a timidez e indiferença omissa dos sindicatos da categoria (notadamente a APEOESP, uma vez que o CPP apenas é um sindicato de patronal de fachada e administrador de “colônias de férias”) que não se mobilizaram ferrenhamente contra o projeto, grande partes dos professores não entenderam que para ganhar os supostos miraculosos salários para quitarem seus carnês das Casas Bahia precisam esta dentro de um rol de 25% dos supostos “bem avaliados da rede estadual” dentre os professores que se sujeitarem servilmente a fazerem a tal provinha.



(Continua em: “2. O ´Processo Imbecializador`: uma insana metástase”)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Educação e Barbárie: Adaptação ao Caos na Política da Mediocridade


Em sua luta pela existência (Dasein) os homens necessitam do esforço do conhecimento, da procura da verdade, porque não encontram revelado de imediato o que é bom, justo e benéfico para eles. (Herbert Marcuse, “Cultura e Psicanálise”)


*

Uma grande capacidade humana é o poder de adaptação nas mais áridas situações e ambientes. Praticamente em quase todas assimétricas regiões do planeta Terra existe presença humana no desenvolvimento de algum tipo de sociabilidade entre núcleos de indivíduos. As privações materiais ou ambientais são trabalhadas de forma que a luta pela sobrevivência seja a força-motriz de atos e ações individuais ou coletivas. Neste mecanismo de sobrevivência, uma situação de barbárie poderá ser configurada de forma a atenuar seus efeitos deletérios a tal ponto que possa se tornar “aceitável” a degradação humana em troca de algumas “sublimações” ou “concessões” da dignidade básica que constitui o ser humano. Sorrateiramente, é no ritmo das “concessões circunstanciais” que se alicerça o grande perigo para a própria sobrevivência humana.


Uma curta matéria do matutino “Folha de S. Paulo” desta quinta-feira, 05/11, merece ser digno de nota. Com o título, “Rio treinará aluno para agir durante tiroteio” o jornal destaca o projeto da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro de “treinar” professores para agirem em situação de tiroteio. “A partir do ano que vem, medida vai envolver 100 mil estudantes e 4.000 professores de 150 escolas em áreas de risco”, destaca a reportagem. Um detalhe inusitado do programa é o nome do projeto da prefeitura carioca com apoio da UNESCO: “Escolas do Amanhã”. Para deixar mais insólito o debate, na mesma reportagem, assinala uma “crítica” da ex-secretária de Educação do Rio de Janeiro, Regina de Assis: “Os professores e alunos já sabem como agir. Isso é jogada de marketing”. Traduzindo: a barbárie do tiroteio alvejando ambientes escolares na cidade-olímpica é tão natural quanto o ar com cheiro de pólvora que adentram nos pulmões das crianças. Mais surreal impossível!


Sem desejar recair numa bizarra e provinciana comparação dos níveis de violência genocida entre São Paulo e Rio de Janeiro, esta simplória matéria no jornalão paulista poderia causar maior torpor nos leitores mais desavisados ou que não tem muito conhecimento das implícitas realidades do cotidiano. Com merecidos créditos, a cidade-olímpica cuja proteção imaginária é feita pela generosidade do Cristo Redentor é o alvo de toda saraivada de críticas pela escalada absurda de violência. Todavia, utilizando uma pieguice expressão conhecida popularmente como “chutar em cachorro morto”, é muito mais fácil criticar o óbvio do que olhar o que está atolando os próprios pés. Poder-se-ia inferir afobadamente que a Guerra Civil Fluminense é um problema local e longe das demais “realidades brasileiras”. Ledo engano! O que falar da violência silenciosa que contaminou quase todo o sistema de Ensino Básico das escolas públicas do Estado de São Paulo?


A estupidez da barbárie do cotidiano escolar não é apenas restrito aos limites da Grande São Paulo e segue interior adentro. Cada vez mais, sem maiores alardes e dentro da surdina que range os portões escolares, a tolerância ao consumo de drogas dentro e fora de recintos escolas e o medo que muitos profissionais da Educação têm que conviver em ambientes degradados longe de possibilitar o convívio de seres humanos. Avolumam-se exponencialmente inúmeros casos de agressões por parte de alunos contra professores. "Ofender", "intimidar" e "ameaçar" são verbos usuais cada vez mais empregados na rotineira relação psicanaliticamente atormentada entre professores e alunos. A adaptação aos insultos gratuitos é uma rotina consagrada de grande parte dos professores na sua tarefa “sacerdotal” de operar ilusórios milagres educacionais em regime de total devassidão de sentido. A impunidade e a certeza que toda relação humana se baseia numa truculência assimétrica de valores e significados é um terreno fértil para a perpetuação de contínua elasticidade das condições de barbárie.


A ação que mais caracteriza o ambiente escolar, em especial das escolas públicas geridas pelo governo de São Paulo é o fingimento. Como a Alice no “País das Maravilhas”, personagem da obra clássica do britânico Lewis Carroll, o governo tucano através da Secretaria de Educação (SEE-SP) há duas décadas que patina num mundo encantado de um mágico surrealismo fingindo que organiza a Educação pública. Há poucas semanas, Paulo Renato Souza, o atual secretário que ocupa a pasta da SEE-SP do governo José Serra, concedeu uma entrevista para as Páginas Amarelas da amarelada “Revista Veja”. Na neoliberal e colonizada Revista Veja, Paulo Renato demonstrou que é um excelente secretário de Educação sueco ou finlandês e buscou fingir que conhece a realidade do sistema educacional que gerencia. Na política do caos, o sórdido modelo tucano de Educação Básica é meramente culpar os professores por todas as mazelas do sistema e jogar a sociedade contra a classe trabalhadora na Educação (prática usual de governos neoliberais). O atual mote da gestão de Paulo Renato é um imbecilizado “Plano de Carreira” que utiliza o cínico modelo da “meritocracia” por meio de senis provinhas como meio de coerção dos professores. Nas entrelinhas do “Plano de Carreira” já aprovado pela Assembléia Legislativa de São Paulo (ALESP), os professores do Ensino Básico do Estado de São Paulo serão os primeiros servidores públicos do país que terão o “privilégio” de constituir na primeira categoria a não ter mais isonomia salarial e ter anulado qualquer possibilidade de reajuste salarial via decreto-lei! Logo, para auferir lampejos que assegure qualquer aumento salarial, os professores terão que se submeter às esdrúxulas “provinhas” sob o cínico rótulo da meritocracia. Na adaptação à barbárie, não será estranho em brevíssimo tempo a movimentação de boa parte do professorado a torrar seus escassos níqueis em inúmeros “cursinhos para as provinhas” entre suas estafantes e caóticas jornadas de trabalho. Desta forma, diante do caos arquitetado pela irresponsabilidade e incompetência da SEE-SP, para a grande maioria dos professores a reivindicação de direitos básicos se tornou “inutilmente” obsoleto e, conseqüentemente, a única saída é “aceitar” a barbárie como forma de sobrevivência. Sintomático!


E segue a política do cinismo tucano e a ocultação da violência nas unidades escolares. A SEE-SP finge que tem uma equipe de segurança de policiais que fazem à risível “ronda escolar” com profissionais tão preparados quanto à Guarda Municipal que vive espancando camelôs no centro da capital paulista (mais outro bizarro cenário do cotidiano paulistano!). Com uma invisível política de segurança pública dos arredores das escolas, a SEE-SP finge que dá segurança aos precários prédios escolares. Com o consumo cada vez mais freqüente de drogas e seu facílimo acesso por parte dos alunos, tal conjunto de fatores constituiu numa geratriz de profunda dispersão da violência dentro das unidades escolares. O mais incrível é que tudo é jogado ao “Deus dará”: sem apoio do Estado para dar garantias mínimas para alunos, professores em situações de risco, sem uma política antidrogas e sem assistência médica e psicológica o resultado é o fingimento por parte do Poder Público do zelo pela Educação pública. Naturalmente, a violência dentro das unidades de ensino por parte de livre trânsito de drogas é apenas um dos aspectos que torna a unidade escolar um ambiente de profunda angústia e palco de inútil confinamento de seres humanos o qual leva o mote singelo de “educação”. Mais uma vez, boa parte das unidades escolares não passa de arcaicos campos de concentração. E a situação é ainda mais caótica!


Para ficar restrito ao caso de São Paulo, é importante frisar o fracasso retumbante do modelo pedagógico-educacional praticado pela SEE-SP. A adaptação subserviente ao caos na Educação Pública é a ordem primaz que diretores, professores e funcionários lutam diariamente para gerenciar a escassez de recursos, norteadores pedagógicos e de significado social montados em prédios que inúmeras vezes lembram muito mais à cadeias públicas. Para citar um tétrico exemplo, o autor que aqui escreve já trabalhou em uma unidade escolar integrante do sistema público da SEE-SP onde se fazia presente três enormes e pesados portões de ferro que separavam a rua do interior da “cadeia”, ou melhor, “escola pública”. Seguramente, poucas delegacias de polícia ou centros de detenção possuem formidável sistema de portões trancafiando seus confinados! A arquitetura do medo e da opressão é peça integrante da arquitetura da barbárie.


A adaptação à barbárie é a célula-mater do modelo desenvolvido pelas sucessivas gestões tucanas em São Paulo. Em belíssimas propagandas eleitoreiras do governo de São Paulo, as cenas são dignas de paisagens educacionais suecas, canadenses ou finlandesas: professores e alunos tão felizes como se estivessem num verdadeiro Paraíso dos Trópicos. Lá no Rio de Janeiro como cá em São Paulo, a adaptação ao caos é a via por onde a sociedade cinicamente se permite “aceitar” numa condição de barbárie para si e para suas vindouras gerações. Lembrando apenas em períodos eleitorais, a Educação pública é vista como algo secundário, marginalizado e situa-se como uma “dádiva” dos ricos para os filhos dos pobres condenados à serem trabalhadores no refugo do modelo capitalista, nada é levado realmente a sério neste fundamental setor social.


Para exemplificar, com a sordidez digna das novas gerações de políticos que apenas operam a “via democrática” para a manutenção do “status quo” vigente, o Brasil conseguiu consolidar um dos principais parques automobilísticos do mundo com alta capacidade tecnológica e uma sofisticada logística para atender o mercado interno e externo. Paradoxalmente, regurgita um falido e catastrófico sistema de Educação Básica. A força e compromisso do grande capital no exclusivo modelo capitalista é naturalmente com a geração de mais-valia e às favas para os seres humanos. No moto-contínuo capitalista, os humanos são apenas peças descartáveis de sua complexa engenhoca de criar auto-replicação do capital.


A cada ano, em movimento eleitoreiro, o governo das três esferas de poder alardeia aos quatro cantos do eleitorado uma nova “injeção” de recursos para a Educação. Como num passe de mágica, nada efetivamente se observa com alguma materialização, exceto algumas escolas estrategicamente “modelar” para fazer propaganda política. A constatação óbvia é que a Educação Básica “para pobres” nunca foi política prioritária de nenhum governo. Histericamente, as escolas privadas com alto valor nominal de suas mensalidades inventam miraculosamente uma série de “recursos pedagógicos” de duvidosa contribuição para o ensino-aprendizado dos seus alunos. Quando não é trivial distinguir se o ambiente privado de educação foi projetado para a finalidade de “educar” ou se constituírem em mais um shopping-center para incitar a futilidade consumista de seus alunos e extorquir dinheiro de seus respectivos pais ou responsáveis legais. Para este modelo, o princípio básico é agradar os pais dos alunos e, estes por sua vez, conseguir que sua prole conquiste assento em alguma universidade (claro, de preferência uma universidade pública!). Neste modelo mercantilizado de “conhecimento bancário”, como a tarefa da Educação Básica fosse tão somente pré-fabricar vestibulandos e futuros “bixos”. Logo, entre açougues, borracharias e quitandas, para muitos ufanistas do “modelo privado” do livre mercado da Educação, a adaptação à mediocridade caótica não é apenas “mérito” do sistema público de ensino.


A história é sempre tão conhecida e exaustivamente repetitiva: enquanto a Educação Pública verdadeiramente e visceralmente não for um projeto de Política de Estado para redefinir o papel do Estado no sistema educacional, continuará as velhas retóricas e suicidas práticas de adaptação à barbárie. Alertando que a barbárie não faz nenhum tipo de concessão para a vida e a dignidade humana. A adaptação de alunos aos tiros de metralhadores e pistolas ou a violência explícita dentro das unidades escolares é comprovação mais que evidente da falência gritante das políticas públicas do Estado.


Ademais, quando o Estado se torna inoperante e não é mais capaz de produzir ou conduzir suas ações, permite produzir um “vácuo” de poder econômico, social e político. No ínterim, insere-se nesta fenda um “Estado Paralelo” movido pela corrupção e controle de elementos que recriam a seu bel prazer uma nova “ordem” dentro do caos. A ordem do medo, da coerção e do gerenciamento delinqüente da “coisa pública” desestabiliza qualquer Estado e deixa exposta a face mais cruel da barbárie que atinge frontalmente vítimas indefesas. Relegar a Educação aos excrementos mais fétidos das inócuas políticas públicas neoliberais em troca de discursos ficcionais e a propaganda eleitoreira é construir em surdina os trágicos alicerces para uma sociedade cada vez mais insustentável do ponto humanitário. A adaptação humana à barbárie é também a sua melhor forma de auto-extermínio.