terça-feira, 13 de abril de 2010

Um Elogio à Eutanásia: Greves, Servidão Docente e o Fim do Sindicalismo



“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.” (William Shakespeare)



1. A tampa do caixão.


Na última quinta-feira, 08 de abril, para quem esteve presente na fúnebre assembléia dos professores do ensino público de São Paulo, no vão livre do MASP, na Avenida Paulista, presenciou de forma estapafúrdia o fim de uma Era no sindicalismo tal como é conhecido hoje. O fiapo de credibilidade que a APEOESP, sindicato da categoria, ainda sustentava foi escoado para o ralo. Assim como deverá ser o destino de toda a trupe dirigente que representa um sindicalismo autista ligado de forma parasitária à moribunda APEOESP.

Os trinta dias de greve foram pulverizados em alguns minutos de puro deboche. O desrespeito sorrateiro e cínico com toda a massa de professores presentes na assembléia (e que bravamente ainda não havia sucumbido à vigorosa servidão que se abateu na categoria) não foi induzido pelo fascistóide do então governador José Serra ou seu amigo tucano, Paulo Renato, secretário de Educação. Nesta ocasião, saiu da própria direção da APEOESP o papel de algoz do movimento dos professores. A escandalosa falta de sensibilidade e desrespeito com toda a massa de professores ali presentes naquela assembléia se personificou na patética figura da presidente da APEOESP, Maria Izabel, ou simplesmente, Bebel. Em cima de um mini-carro de som, algumas figurinhas carimbadas da direção sindical, fazendo malabarismo para disputarem o microfone e discursar para seus grupos de apoio (num lírico eufemismo, os tais “coletivos”). O que se viu (e o filme não é novo) foi cada dirigente preocupado unicamente em agradar sua pequena platéia de bajuladores, enquanto toda a massa de professores ficava atônica diante das enxurradas de frases de chula retóricas e chavões carcomidos. Sem mais, nem menos, numa votação relâmpago, no meio do crivo de tantas falas ao estilo das cataratas do Iguaçu, a direção da APEOESP, decretou o fim da greve. Tão democrático e transparente quanto às práticas de Hitler, Stálin, Bush Filho ou Ahmadinejad.

Seguiu-se o rolo compressor da máquina sindical. Feito isto, a presidente da APEOESP colocou uma pá de cal no movimento e como boa “patroa” que acredita ser, literalmente mandou todos os professores presentes naquela assembléia para a casa. Sim, sem exageros ou eufemismos recorrentes, como cães-sem-dono e com o rabo entre as pernas, centenas de professores ficaram perplexos diante da indiferença que a ação da diretoria sindical destinou aos presentes. E a agenda programada previamente para o ato: a caminhada pela Avenida Paulista até a Praça da República? Tudo foi subitamente abortado ao bel-prazer de meia-dúzia de “lideranças”.

Sem nada concreto, sem nenhum tostão garantido, sem nenhuma reivindicação atendida, sequer uma promessa de alguma coisa, toda a mobilização dos professores foi chutada como se fosse um cachorro morto. Todavia a direção sindical comemorava como se fosse uma “vitória” o término da greve. Paranóia ou manipulação? Eis a face do sindicalismo autista (ou para usar um chavão bem conhecido no meio sindical: o “peleguismo”) em tempos neoliberais. Descolados da realidade, tal casta dirigente usa e abusa de uma sofrida, alienada e servil classe docente para simplesmente desmoralizar ainda mais os movimentos voluntários dos que ainda acreditam na resistência contra os projetos neoliberais. Pior que as atitudes arrogantes de Serra e Paulo Renato, são os atos de uma direção sindical sem o menor pudor e compromisso com a realidade dos trabalhadores de sua categoria.




2. Cabides de emprego.

Ao observar o caso da APEOESP, durante sucessivos anos, muitos de seus dirigentes sindicais ocuparam de forma feudalizada suas cadeiras em eleições tão transparentes quanto às cristalinas águas do rio Tietê. Com a credibilidade localizada na Fossa das Marianas e sem um mínimo de senso de realidade, tais figuras agem como aves de rapina que apenas vampirizam o erário público, pelas artérias da estrutura partidária ou sindical. A luta famélica nas entranhas do círculo sindical se transformou praticamente na perpetuação no poder de suas lideranças autistas e narcíseas. Quanto aos trabalhadores, resta à orfandade de um sindicato burocrático, inchado, perdulário e feudalizado. Em verdade é bom dizer que a democracia sindical é um paradigma ainda a ser praticado com vigor assim como a “democracia” em muitos partidos e agremiações que se auto-rotulam de “esquerda”. Pior que o fascismo da direita é o cinismo de uma suposta esquerda fetichizada pelo poder.

Desmoronou o Muro de Berlim como arquétipo de um símbolo, mas não ruiu a mediocridade e os ranços totalitários dos grupos que se amiúdam em torno de laços supostamente “socialistas” e similares. No campo de propostas factíveis para a Educação, o fosso do aneurisma engloba a “esquerda” e “direita”, sem visão do presente ou lampejos para o futuro. Enquanto a direita se articula na macropolítica em torno dos interesses econômicos privados, a esquerda se corrói entre si por nacos fálicos de ilusório poder, o micropoder. Como no jardim da infância, brigam entre si por pequenos brinquedos e a ordem é a fragmentação de toda e qualquer unidade. No caso da APEOESP, há mais agremiações de coletivos do que times de futebol da segunda divisão do campeonato paulista!

A conta é simples: onde há falta de credibilidade, quanto maior é a fragmentação, maior é o rancor e ódio entre si. Logo, não era de estranhar a briga de socos e tapas entre membros de alguns coletivos que ocorreu após o abrupto encerramento da assembléia dos professores desta ultima quinta-feira. A indignação pelo resultado aliado aos desmandes do linchamento verbal entre os “coletivos” teria como subproduto o incitamento ao tumulto entre os descontentes com o rumo que a direção do sindicato tomou no movimento. Se houve perda de força e porosidade na construção do movimento, além das levas típicas do “peleguismo” (atado a um tom reacionário ou franca resignação), certamente é da direção da APEOESP toda a responsabilidade. A entidade na prática por nunca se interessou realmente em construir um novo modelo de articulação política entre os trabalhadores. Coube a APEOESP fazer a “fumaça” da greve e sobrar covardemente para as costas dos professores a responsabilidade pelo “esvaziamento” do movimento.

Para a direção que ocupa as cadeiras da direção da APEOESP, ter ou não greve, é apenas uma questão de ventos favoráveis aos mesquinhos interesses narcíseos. Quanto a situação dos professores “não instrumentalizados” nas disputas circenses dentro do sindicato, relegou-se ao último plano das preocupações desta casta dirigente. Aos professores cabe a responsabilidade de não se interessar em buscar seus próprios direitos trabalhistas e se contentar silenciosamente na servidão voluntária. A letargia é a estéril massa pastosa que rege o autismo sindical.




3. Desorientação e declínio vertiginoso.

Provavelmente o maior de todos os ativos políticos de consolidação da hegemonia neoliberal no Ocidente após a queda do muro de Berlim é a dispersão do chamado “pensamento único”, calcado na democracia eleitoral e o neoliberalismo. Entre o preto e o branco, predomina o martelo da cor cinza. Na política, a “esquerda” e a “direita” são antagonismos cada vez mais siameses. Neste ínterim, o movimento sindical perdeu vertiginosamente sua identidade e força política.

Varias são as explicações para o declínio do sindicalismo, seja pela incapacidade de articulação de suas lideranças para os “novos tempos”, seja pela resignação complacente dos seus membros. Para muitos sindicatos, como a APEOESP, a luta interna pelo poder na direção se tornou a maior preocupação de suas lideranças e dos diversos coletivos que abrem mão de buscar alternativas contra a desertificação do trabalho e se esforçam de maneira fratricida para destruírem uns aos outros. Logo, tais grupos e pessoas abusaram no uso maciço das lições de Maquiavel de uma maneira estritamente troglodita!

Na “fronteira” do movimento sindical, tramitam desde os xingamentos aos sopapos distribuídos às toneladas. O dialogo crítico e racionalizável cedeu espaço para a afronta gratuita e paranóias rocambolescas. Quem não veste a “camisa” para aderir a alguma corrente dentro da estrutura sindical, resta o insólito programa de ficar assistindo atônico à diplomacia atabalhoada bem ao estilo paspalhão de Moe, Curly e Larry. Em tese, uma consciente politização (não confundir com alienação partidária) é um valoroso instrumento para a articulação e fortalecimento das estruturas de qualquer organização social.

Nas lutas frenéticas no útero sindical, como no caso da própria APEOESP, a fragmentação é o retrato mais contundente que faz da alienação pelo poder um poderoso combustível para a cegueira da realidade. Entre trabalhar com a responsabilidade perante seus membros e destruir um “coletivo” inimigo, o sujeito sindical abduzido pela senha alegórica do micropoder não hesitará em descarregar suas energias pela segunda opção. O resultado é a clamorosa desertificação do senso de realidade. Segue a simples lógica da cegueira imediatista nos tempos acinzentados do neoliberalismo: “na ausência de foco materializável, o ‘inimigo’ é o meu companheiro!”.




4. Adeus aos constrangimentos.

A “Folha de S. Paulo” de 02 de abril, na coluna da experiente jornalista Mônica Bergamo, trouxe uma “entrevista” com a presidente da APEOESP, a Bebel. De prontidão, duas questões de imediato chamavam a atenção do leitor mais esclarecido: a “pose” do clique fotográfico que estampava a esfinge de Bebel que centralmente era o foco da página e a “entrevista” da mesma no caderno “Ilustrada” no meio da coluna social da Folha (e muito além de qualquer nuvem política na reportagem). Apoiador imediato do seu ex-colunista e candidato ao Planalto, José Serra, é curioso notar que a Folha foi um dos veículos da Big Mídia que mais se preocupou em dar o caráter “invisível” da greve dos professores. Em nome do “julgo jornalístico”, a Folha sem a menor cerimônia distorceu realidades, fatos e números de forma parcial e sorrateira induzindo ao leitor a vários equívocos. Portanto, por qual motivo a Folha daria espaço de “bandeja” para o movimento dos professores? E não deu! Antes de tudo, é importante destacar para o leitor que a tal “entrevista” não foi uma entrevista, mas uma reprodução de conversas da jornalista com a Bebel em “off” (ou seja, uma entrevista “indireta”). O lado “mulher” da presidente era o foco, com brilhantes contribuições para os assassinatos da língua portuguesa e do bom senso. Em sua coluna, Bergamo apresentou na sua coluna de socialite a presidente da APEOESP como uma vaidosa e fútil emergente do alpinismo social e sindical. Nada demais entre tantas bobagens estéreis ditas nestas colunas sociais, porém, quando se esta em jogo não é importantíssima falta de depilação nas “pernas peludas” descritas pela própria Bebel (!), mas o fiapo de credibilidade que ainda residia na APEOESP, e por extensão, que atinge a categoria docente.

Os constrangimentos de conceder matéria para a Folha não existe mais quando se atende aos mimos narcíseos da casta dirigente. De futilidade em futilidade, o que estava destilado numa “entrevista” bisonha é uma presidente de um sindicato que conduzia um movimento grevista sem o menor compromisso com o cargo que supostamente deveria dar mais valor ou credibilidade. A postura narcísea da presidente é que deu o tom da conversa à Bergamo. E quanto ao movimento dos professores, nenhuma palavra. Irônico é o título da matéria da “entrevista” de Bebel: “Greve: Bebel bota pra quebrar”. Em tom de irônica alusão da estúpida pancadaria promovida pela Polícia Militar contra os professores na assembléia de dias atrás, próximo do Palácio dos Bandeirantes. À boca pequena, alguns dos apoiadores de Babel tentaram justificar a “entrevista” à Folha como sendo uma “montagem”. Uma difícil defesa contra fatos tão verossímeis. No entanto, no próprio site oficial da entidade, no “Blog Palavra da Presidenta”, a entrevista de Bebel à Bergamo foi reproduzida na íntegra. Sem a menor contestação à matéria da “entrevista”, a direção da APEOESP deve acreditar que foi um fator “positivo” e a qual obteve alguns comentários de apoiadores eufóricos com a ascensão meteórica ao “showbizz” de sua “liderança maior”.

Na sociedade da informação (e também de sua manipulação), o poder da imagem é um imprescindível ativo que tem o toque áureo de Midas. Para uma sociedade que aplaudiu alienada as “peruices” da aluna-ficção como Geyse Arruda no episódio farsesco da UNIBAN, por que não aplaudir uma vaidosa Bebel, a “líder” da APEOESP? Qualquer semelhança são apenas plumas e patês. A meteórica ascensão do anonimato ao estrelato midiático da futilidade. Ainda é interessante mencionar algumas outras performances da “líder” Bebel e seu show de horror particular à frente da APEOESP. Basta ler as “inteligentes” declarações da presidente na Big Mídia. Pura mixórdia!

Cabe uma alegoria à atuação da presidente da APEOESP. Como uma noiva deixada na porta do altar, a presidente no meio da greve vociferou uma série de patéticas frases-feitas contra a figura do (ex-?) governador José Serra, como se este fosse o surreal ex-noivo da presidente. Daí que a Big Mídia usou as desastradas falas de Bebel e taxou em seus jornalões a peça da “greve política”. Com uma presidente assim, quem precisa de inimigos? Comezinhos à parte, Bebel se personificou no que existe de mais fútil e estéril na política sindical.

Questionam-se tantas bobagens nas praticas fascistas do “politicamente correto”, em tantos debates estéreis em questões de gênero, sexualidade ou étnico, que quaisquer críticas às praticas fanfarronas pelo micropoder é logo taxado de “preconceituosa”. Logo, uma “mulher” à frente do maior sindicato do Brasil poderia ser algo “positivo”, mas deve-se prender atenção para o olhar que suas práticas são tão deletérias que se torna apenas um fardo morto para a própria atuação do sindicato. Por que aplaudir tanta bobagem por parte de uma presidente de uma entidade significativa pelo simples fato de ser “mulher”? Não parece razoável esta defesa à perpetuação do autismo sindical. Sua renuncia em conluio com toda a direção atual da APEOESP é o melhor dos serviços que estas pessoas poderiam agregar positivamente ao movimento. Naturalmente, como não mais existe sequer o constrangimento desta elite do micropoder de ostentar a incompetência e a mediocridade, vão se tornando cada vez mais podres e inúteis as estruturas da ação sindical.

O naufrágio do movimento sindical tenda a ampliar o fosso que separa a cabeça ávida de seus dirigentes pelo micropoder e a realidade propriamente dita. A atuação da direção da APEOESP além de desastrada foi omissa e politiqueira. Levou a mais um fracasso da categoria dentre tantos outros fracassos durante os terríveis anos dos tucanos na gestão da educação pública no Estado de São Paulo. Para piorar a situação, como a direção do sindicato fez de tudo para esvaziar o movimento dos professores, ficou para a sociedade o tom que Serra e Paulo Renato quiseram emplacar, ou seja, a galhofa da tal “greve política”. E pegou!

No jargão do sindicato, a “base” (ou seja, a massa de articulação com os trabalhadores), mesmo com seus limites de atuação, bem que tentou por osmose se esforçar para dar musculatura ao movimento que começou de forma tímida e um tanto precipitada. A direção da APEOESP, com uma postura mais interessada em fazer coro imediatista aos seus militantes de coletivos e produzir “fumaça” casuística, deixou de lado a construção da greve e sobreviveu de tom histriônico da retórica fútil do palanquismo. Logo, o sucesso da vitalidade da greve era tão previsível quanto à eficácia dos tratados de paz árabe-israelense promovidos por Washington. E como sempre, o governo Serra, com a experiência tucana do desmonte de movimentos populares, sabia disto e contava com a notória ineficiência disciplinar das cabeças politiqueiras e fanfarronas da direção da APEOESP.




5. Saldo da greve.

Entre derrotas e vitórias, o balanço global é estritamente negativo. O único fator positivo é a mobilização dos professores num momento de grande letargia da catogia. Um momento de desespero no bolso de uma multidão de docentes que se uniu às passeatas pela Avenida Paulista e Rua da Consolação e não necessariamente pelo viés da consciência política. Aliás, para uma classe que ostenta o “monopólio do saber”, a conscientização política na grande maioria do seu coletivo passa lá pelas fronteiras sul-africanas de Johanesburgo. É salutar compreender que no meio da hecatombe educacional do sistema público de São Paulo, milhares de professores deixaram temporariamente de lado seu cabresto voluntário e perfilaram nas ruas em prol de sua identidade perdida no leito oceânico do Atlântico. Muitos irão dizer que só trocaram o pó de giz na cara e pisaram no asfalto apenas por que seus salários terminam já no primeiro quartel do mês. Antes à indignação narcísea à resignação complacente.

Subtraindo os lampejos de resistência da classe docente, todo o resto foi lamentável! O que fica é a postura cínica, medíocre e covarde da direção da APEOESP; o escancaramento do fascismo direitista da Big Mídia; a postura arrogante e fascistóide do postulante ao Planalto, o (ex-?) governador José Serra; a indiferença do governo federal via MEC que nada fez para mediar o impasse nas negociações; exceto um ou outro nome, mais uma vez se notabilizou pelo desdém da classe política perante a Educação Pública e a crise educacional que se alojou em São Paulo. Aliás, é notório que a temática da Educação jamais foi prioridade em nenhum governo no Brasil. Enquanto se procura remendar os fracassados e fajutos projetos educacionais, a permanência do autismo sindical, a perpetuação de uma classe de professores-tarefeiros que é facilmente cooptada pela promiscua servidão voluntária, se torna praticamente impossível rascunhar uma nova agenda para fazer a imprescindível revolução na Educação pública.




6. Eutanásia ou trevas?

Antes de qualquer coisa, é pertinente frisar que os professores que bravamente resistiram a um mês de luta, buscaram combater a resistência de muitos colegas resignados e ainda terão descontos dos dias parados religiosamente nos seus salários, é bom deixar claro: tais pessoas não são otários. A esmagadora maioria dos professores que entraram em greve real (e não apenas paralisações pontuais e casuísticas) não fez por amor a nenhuma mirrada elite política dos quadros da direção sindical. As razões de adesão à greve foram bem além do mero pragmatismo salarial. A APEOESP como entidade representante dos professores desmoralizou toda a categoria com uma assembléia farsesca que sequer cumpriu minimamente a agenda prometida no ato do dia 08 de abril. Pertinente relatar o esforço hercúleo de uma massa expressiva de professores que saíram de suas cidades do vasto interior paulista para engrossar o movimento das assembléias e passeatas na capital. Salienta-se que a direção da APEOESP tanto fez para desmoralizar e desmotivar tais valorosas pessoas que praticamente lutaram sozinhas na grave ou com apoio de algumas de suas pessoas das subsedes, e ainda serem “coroadas” com o humilhante título na Folha de S. Paulo de 09 de abril, dia posterior ao decreto do “fim da greve”: “Professor encerra greve com 0% de reajuste”. Com ar de vitorioso e sonhando com o Planalto, Serra sorriu de orelha a orelha a batalha contra os baderneiros de “1% da categoria”!

Se a mobilização enfraqueceu não foi pela “ação” do governo, como a brilhante Bebel em nova e desastrosa mini-entrevista na Folha Online de 10/04, com a sapiente e motivante conclusão da presidenta: “Mas qual categoria agüenta 30 dias de greve?” ou ainda outra pérola do corolário de Bebel: “Não dá para oferecer 0% toda hora”. Diante de tanta patacoada da direção da APEOESP, não resta dúvida que a renúncia coletiva é a único caminho menos traumático e mais louvável para o bem do próprio sindicato. Naturalmente esperar alguma hombridade destas pessoas que se alojaram nas estruturas sindicais como cracas em fundos de navios, é o mesmo que aguardar (sentado) uma nova configuração política das Nações Unidas. Com a renúncia coletiva da direção executiva da APEOESP, poderia ocasionar uma possibilidade real de refundação da entidade. Urge um novo sindicalismo para além das práticas já desgastadas, com um horizonte de novas ações, maior lisura e democracia interna, um olhar mais verdadeiramente voltado para a classe trabalhadora. Não cabem velhas práticas que não mais comportam num mundo metamorfoseado pelo neoliberalismo e se faz necessário o estabelecimento de novas estratégias para um modelo sindical combatente, moderno e renovado.

Para um mundo cada vez mais turvo movido a um narcisismo mercadológico consumista, é necessário a reflexão para um novo sindicalismo em busca de apoiar um novo modelo de educação pública. Urge um novo modelo, um olhar livre e emancipado do voluntarismo servil dos trabalhadores da educação que se acomodaram com a agenda neoliberal que vem sendo imposta pelos sucessivos governos do PSDB. Um exemplo desse servilismo voluntario é a grande quantidade de professores que se submeteram as ridículas provinhas do “mérito” para conquistarem um suposto aumento salarial que fere frontalmente a isonomia da categoria.

Para a maioria dos professores, tornou-se “aceitável” trabalhar em escolas com salas inchadas de alunos, sucateadas e infestadas pela patologia da violência explicita. O que assusta mais ainda é um discurso que se aceita apenas assegurar algumas “almas” se safarem do caos instalado no ensino público. E quem se “perdeu” durante o processo? Este estará seguramente fadado ao ostracismo e a marginalidade. O sistema escolar da forma que se arrasta atrás dos anos é um perverso laboratório do darwinismo social. Os não-aptos, ou seja, a grande maioria, são expelidos para fora do sistema.

A educação pública universal, gratuita e de qualidade são elementos que constitui os alicerces para uma sociedade que busque trabalhar em prol de um horizonte da igualdade de oportunidades. Uma educação pública integral que compreenda todos os estágios de evolução do ser humano até sua inserção madura na sociedade. Notadamente, os debates a este respeito no seio do atual sistema sindical é um desolador deserto. Diante do caos, as nuvens são espessas e acinzentadas. Aos professores cabe a reprodução tarefeira do seu trabalho e ainda muitos não se aceitam no rótulo de “proletariados”. Quando a apatia rege as ações, o resultado é uma corrosiva servidão voluntária e autofágica.

A vida e a morte são faces unívocas de uma mesma moeda. A eutanásia é um processo de sublimar a dor e dar alguma dignidade ao paciente terminal. A educação pública está há tempos neste estágio vegetativo e abraçada a um modelo que absolutamente não serve para anda, além de triturar o futuro de milhares de alunos. A “boa morte” é um mecanismo de finalizar o sofrimento e assim possibilitar a construção de um novo paradigma a ser construído em detrimento ao caos existente.

Os caminhos para um novo mundo são regidos por trilhas ásperas e íngremes. Basta saber se a servidão docente será maior que a luta por reconhecimento e dignidade num mundo regido por uma perversa lógica de um sistema educacional que é um verdadeiro convite à eutanásia. Parafraseando o poeta português, Fernando Pessoa, navegar é preciso, viver não. Empurrar com a barriga ou criar um novo horizonte de perspectiva humana? Diante do caos, as escolhas a serem feitas são razoavelmente simples e a válvula do tubo de oxigênio está ao alcance da mão de cada profissional comprometido com a educação pública.

Um comentário:

Altair Lourenço disse...

gostei do seu texto
abraço