quinta-feira, 18 de março de 2010

Em Busca de Reconhecimento e Identidade: A Greve na Educação Pública no Estado de São Paulo


Para que a mobilização atinja o êxito necessário, é fundamental a adesão massiva dos professores nesse processo. Naturalmente, ampliando o número de participantes que engrossa a fileira da paralisação, o governador José Serra e seu fiel amigo e secretário da Educação, Paulo Renato, não terão como continuar a saraivada de deboches irresponsáveis contra a categoria docente. Serra vem praticando o jogo do “faz-de-conta que não existe” com a greve dos professores do estado de São Paulo e se recusa peremptoriamente a negociar. Um cínico teste de resistência que o governo aplica para medir a capacidade de mobilização dos professores.


A grande participação dos professores na assembléia do dia 12 de março mostrou a face da indignação da categoria. É pertinente ressaltar que somente a mobilização dos professores e o esclarecimento da população sobre a pauta de reivindicação da categoria que poderá garantir fôlego para continuar a manutenção da greve e sua crescente ampliação. Sublinha-se ainda que muito além de uma óbvia reivindicação salarial, a luta urgente e inadiável deverá ser por um novo modelo de Educação Básica.


A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP) assim como o próprio governador Serra zombam dos professores dizendo que a greve é “política” e realizada por um punhado de descontentes. Como se não fosse “político” o descaso irresponsável dos tucanos com a Educação. E como não ser “político” o ato natural de gritar pela sobrevivência? Como não é de causar estranheza o falso modelo de democratização da informação aonde toda a grande mídia vem apoiando as nefastas políticas neoliberais que estampa passivamente em seus jornais e noticiários televisivos a versão governamental sem os mínimos critérios que mereceria qualquer denominação vulgar de “jornalismo democrático”. A deturpação esboçada em perdulárias campanhas publicitárias do governo falseia a realidade e logra a boa-fé e desinformação de números expressivos da população.


Obviamente, toda grave é profundamente política. Assim como todas as decisões dos atores sociais possuem raízes essencialmente políticas. Portanto, todo movimento político não é passível de terceirização ou espectador das decisões na cômoda arquibancada. Cada professor é um militante nesta batalha pela dignidade profissional e auto-estima de sua própria condição humana.


Toda alienação permite a virulenta eclosão de espasmos ininterruptos de opressão, despotismo e barbárie. É muito fácil fingir a aneurisma profissional, incutir um olhar rasteiro para os lados ou recitar os velhos chavões da passividade irresponsável do inútil reacionarismo. A alienação engrossa a fileira da miséria humana. Enquanto muitos professores de forma ingênua ou resignada acreditam que seja “normal” trabalhar em condições subumanas, violência cotidiana e precariedade alarmante com uma remuneração cada vez mais irrisória e defasada, o sistema educacional sistematicamente gangrena e apodrece. Para o professor que se julga “profissional”, cabe participar do cenário de decisões de duas distintas saídas: submeter à ordem da calamidade educacional patrocinada há anos por sucessivas gestões acéfalas do PSDB ou lutar por reconhecimento de sua própria identidade e sua condição de existência.


Um movimento grevista não é o fim, mas tão somente um meio de lutar pela construção de um espaço reivindicatório de sobrevivência diante da arbitrariedade. Infelizmente, diante do impasse promovido pelos governos do PSDB e a notória falta de compromisso histórico com a Educação pública no estado de São Paulo, não há outro meio de pressão democrático, digno e persuasivo a não ser a continuidade da greve. Uma greve cujo objetivo é a sobrevida da categoria docente em prol de um novo modelo educacional. Sem direito à recuos ou desistências, a ordem é a ampliação do poder transformador que somente a mobilização popular pode construir no interior de qualquer sociedade.

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Assembléia Estadual dos Professores
Sexta-feira, 19 de março – 14 horas – Vão Livre do MASP



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Saiu no Jornal “Agora” em sua edição eletrônica:

18/03/2010

Greve de professor afeta quatro em dez escolas

Thiago Braga, Agência Folha e Folha de S.Paulo
do
Agora

A Apeoesp (sindicato dos professores da rede estadual) realizará amanhã uma assembleia na avenida Paulista (região central de São Paulo) para decidir se os professores continuarão ou não a greve iniciada na semana passada.

A paralisação no Estado começou no dia 8. A reportagem fez ontem um levantamento da greve. Foram consultadas 108 escolas estaduais da capital e das regiões de Ribeirão Preto (313 km de SP), Campinas (93 km de SP), Jundiaí (58 km de SP) e São José dos Campos (97 km de SP) escolhidas aleatoriamente. Desse total, em 66 escolas todos os docentes trabalharam normalmente (61,5%).

Outras 42 unidades foram afetadas de alguma maneira pela greve (38,5%) --em nove nenhum professor trabalhou (8%) e em 33 uma parte não deu aula (30,5%).

Ontem, o governador José Serra (PSDB) foi hostilizado por grevistas.

Funcionários de escolas dizem que foram orientados pelas diretoras a substituírem os grevistas por professores temporários para evitar que as crianças fiquem sem aulas.

O principal pedido dos grevistas é um reajuste salarial de 34,3%. De acordo com o sindicato, a tendência é que a greve continue. "Até hoje não fomos recebidos para discutir a questão salarial", diz a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Noronha. O governo diz que o movimento é político e que apenas 1% dos professores aderiram à greve.


FONTE:
http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u708500.shtml

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