quarta-feira, 24 de março de 2010

Nas páginas do jornalismo canalha: A Big Mídia e a “invisível” greve dos professores do magistério paulista


Explícita má-fé, irresponsabilidade social ou delinqüência política? Por que o Brasil não é uma democracia de fato? Seja pelos índices socioeconômicos de desenvolvimento desigual entre as diversas regiões ou lamentáveis índices educacionais, há muitas razões para compreender o estágio das crises sociais da nona economia do mundo capitalista (ou melhor, dizendo, das nações ocidentalizadas). Todavia, aqui nos pautaremos pela questão da democratização ao acesso da informação, ou seja, como não é possível falar em democracia plena num ambiente cercado pelo monopólio da “Big Mídia”.



De norte a sul do país, a concessão governamental para abertura de rádio e televisões são subprodutos que atendem apenas aos nefastos interesses político-eleitorais. Em São Paulo, eixo-motriz do desenvolvimento econômico brasileiro, a informação jornalística é monopolizada por apenas quatro família da Big Mídia, os complexos editoriais das agências Estado, Folha, Globo e Abril. Praticamente tudo que circula de informação na mídia impressa e também no conteúdo dos portais de internet tem de forma direta ou indiretamente um vínculo “carnal” com pelo menos uma destas Big Mídia. Já na televisão, a Globo dita a pauta jornalista e a grade de programação que é seguida pelas demais concorrentes. Até mesmo os horários de partidas de futebol ficam reféns dos interesses da grade horário da rede Globo.



Vejamos o exemplar caso da greve “invisível” dos professores do magistério paulista. Em busca de melhores condições de salário e dignidade da profissão, duas grandes manifestações representadas pela assembléia dos professores nos dias 08 e 12 de março de idêntica ação: ocuparam as duas faixas da mais importante avenida do capitalismo brasileiro, a garbosa Av. Paulista, e posterior passeata por todo o trecho da Rua da Consolação até o desembocar na região onde se localiza o prédio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP), na Praça da República. Segundo o Sindicato dos Professores (APEOESP), a estimativa entre as duas passeatas, 12 e 19 de março, giraram entre 40 mil e 60 mil pessoas, respectivamente.



Todavia, o que foi publicado, por exemplo, na Folha de S. Paulo? Vejamos. Na edição estampada do dia 13/03, pautada pelos supostos números da Polícia Militar, a estimativa de professores presentes no ato no dia anterior não passava de 12 mil pessoas. Somente nas páginas internas, a FOLHA exibiu o número da APEOESP, 40 mil pessoas. O grupo Abril cujo destaque do seu jornalismo é a tucana e neoliberal Revista Veja, a respeito da manifestação do dia 12/03, registrou em seu portal de internet que apenas 12 mil professores estiveram presentes na assembléia feita no vão livre do MASP. O portal da Revista Veja cedeu espaço apenas para a versão oficial: “A Secretaria [SEE-SP] destacou que os grevistas terão desconto salarial relativo às faltas. Para o órgão, não há justificativa para a reivindicação de 34% de aumento para os professores, ‘medida que custaria nada menos do que R$ 3,5 bilhões’”. Já o outro lado dos fatos, nenhuma palavra adicional.



No dia seguinte em nova assembléia dos professores no vão livre do MASP, na edição de 20/03 que estampou a candidatura do governador José Serra ao Planalto, a FOLHA, timidamente no meio da reportagem no seu “Caderno Cotidiano”, utilizou novamente os supostos cálculos da Polícia Militar de 8 mil participantes e cita um discreto comentário do número atribuído à APEOESP, 40 mil. Além disto, há uma pequena matéria com o título “Reajuste pedido é ‘impossível’, afirma Secretaria da Educação” e deu destaque para as palavras do Secretário da Educação, Paulo Renato, com sua contumaz indisposição ao diálogo: "a continuidade de um movimento esvaziado, inimigo da educação e que causa transtornos no trânsito [e a greve é de] explícito caráter político", fechando assim as palavras do secretário.



Não obstante, algumas perguntas se fazem necessárias no meio desta guerra numérica: supondo que os números contábeis sobre a participação dos professores nas assembléias sejam da Polícia Militar seja verdadeiros, onde os policiais aprenderam a fazer contas básicas de matemática? Será que usam a mesma contabilidade “surreal” para a contagem de presos de seus depósitos carcerários de humanos? No sábado, para ter uma idéia da contabilidade da Polícia Militar, uma insólita manifestação na Praça da Sé de grupos reacionários anti-aborto, “segundo cálculos da PM”, foi de 3 mil participantes. Oras, se um grupelho reacionário em torno da Igreja da Sé levou 3 mil pessoas, qual seria então o número de pessoas que ocuparam as duas faixas da Av. Paulista e desceram a Rua Consolação? Oito mil, doze mil? Certamente há uma estimativa no mínimo muito estranha da Política Militar que precisa ser discutido e que foge do escopo deste artigo.



Em “O Jornalismo Canalha” (Ed. Casa Amarela, 2003), José Arbex Jr. denunciou o jornalismo inconseqüente, delinqüente e vassalo das elites sendo realizado pelos “escribas do poder”. Cabe ressaltar, que o bom jornalismo diz que pelo menos deve ouvir os dois lados dos fatos decorrentes da notícia. Todavia o leitor interessado no assunto da greve nos professores do ensino público do Estado de São Paulo pouco poderá encontrar a respeito, quanto muito só encontrará uma única versão que é a do governo Serra. Naturalmente, as questões sobre o movimento que “atrapalha” o trânsito foi exaustivamente comentado, como se São Paulo somente ocorresse congestionamento em sua inflada malha viária em dias atípicos de mobilizações sociais, como que ocorreu nos dias que aconteceram às assembléias dos professores.



No intuito de permanecer no ostracismo, toda uma enorme mobilização de professores passou despercebida da Big Mídia, como se fosse algo invisível. Não mais do que algumas notas isoladas e geralmente em tom de crítica pelo fato de professores “atrapalharem” o transito! Para quem participou ou pode observar pessoalmente o movimento dos professores nessas passeatas, certamente causou uma enorme estranheza e perplexidade nas discretas notas dos jornais. Para quem não estava presente, a visão que foi uma meia dúzia de “desocupados” contra o governo cujo único objetivo seria pateticamente atrapalhar o trânsito (mensagem essa que viria de encontro com a afirmativa zombeteira de Serra que costuma recitar aos quatro cantos que o movimento grevista não passa de 1% da categoria). Certamente, alguma coisa está “fora da ordem”.



Para quem busca acompanhar o desenrolar da greve do magistério paulista pelos jornais e principais portais da internet, claramente fica desinformado ou simplesmente entende que não existe tal movimento. A exceção é feita aqui ou acolá por algumas notas das habituais falas em tons sarcásticos de Serra, tais com: “o movimento [dos professores] é pequeno e que vai contra as coisas boas [da SEE-SP]” ou ainda como título da matéria, “Greve dos professores não pegou, graças a Deus” (Agência Estado, 12/03). Além da publicação das conhecidas onomatopéias tucanas do governador, tais como: "Dizer isso é trololó", negando alterações na sua agenda devido a manifestações dos professores no Portal da Revista Veja, 18/03. Mais uma vez, o Big Mídia se confunde com o Diário Oficial, e jornalismo que deveria se pautar pelo tom crítico e investigativo destas agências se torna apenas um mero reprodutor da vontade governamental. Obviamente, nada deste processo é à toa ou oriunda de uma lastimável “incompetência” dos jornalistas destas empresas.



Não é de estranhar a fascistóide postura do jornalista Gilberto Dimenstein, colunista e participante do comitê editorial da FOLHA, que destila em sua coluna sobre “educação” pérolas bisonhas entre tantos disparates de má-fé contra o professor da escola pública. Numa de suas postagens, Dimenstein afirmou que a greve dos professores seria “contra os pobres”, além de aclamar para uma inusitada “cegueira” dos pais “cujos filhos são prejudicados pela greve” e simplifica desta maneira a situação calamitosa da escola pública: “O resto é cegueira. Inclusive dos pais que não se revoltam contra o sindicato” (Coluna Pensata, Gilberto Dimenstein, 18/03).



Voltando ao Portal da Revista Veja, temos mais uma pérola do fascistóide editor da revista e tucano de carteirinha, Reinaldo Azevedo, conjectura no seu blogue as causas da greve dos professores do magistério de São Paulo: “Não basta dizer que a greve da Apeoesp (e não dos professores) — com a sua pauta obscurantista e contrária à qualidade na educação — é tocada pelo PT. É preciso que fique claro que ela é comandada pelo pior do PT, se é que se pode falar assim”. Ainda não contente, o tucano jornalista e editor da Revista Veja prossegue: “A reivindicação salarial não passa de cortina de fumaça para uma tarefa que, parece-me, é de alcance puramente eleitoral”. (Blog Reinaldo Azevedo, 21/03). Será que Azeredo não teve a mínima decência de conhecer um holerite de um professor do ensino público do Estado de São Paulo? Naturalmente, de forma sorrateira diga do jornalismo canalha, como bom tucano e a serviço do seu partido, Azeredo faz coro com a SEE-SP cuja meta é criar mais entulho ideológico neoliberal na Educação pública paulista e jogar a opinião pública contra os professores.



A má-fé é a tônica das coberturas jornalísticas pela Big Mídia no que tange particularmente a cobertura sobre os movimentos sociais, salvo raríssimas exceções. Considerando nefastas figuras como Dimenstein e Azeredo, é muito simplista e cômodo para supostos jornalistas burocráticos a serviço de interesses meramente de grupos de poder econômico, se sentarem em suas confortáveis cadeiras e desfrutando a leveza aprazível do ar-condicionado, utilizar de sua influência “jornalística” para atacar os professores e sequer ter a preocupação de visitar a realidade de uma unidade escolar (claramente, excetuando as escolas “maquiadas” da propaganda oficial).



De braços dados com o governo de Serra, a Agência Estado, estampa em seu portal na internet a promessa de pagamento de bônus para os professores e publicado na versão impressa de 23/03: “SP pagará bônus salarial a 176,5 mil professores” (Agência Estado, 22/03). O “jornalismo chapa branca” da Agência Estado ainda acrescenta no subtítulo da matéria: “Mais da metade dos docentes vai ter benefício superior a R$ 2,5 mil; valores serão depositados na quinta”. Ao longo da matéria “explicando didaticamente” a suposta distribuição da falaciosa política de bônus aos professores, desta maneira, o leitor não sabe se esta lendo páginas do “Diário Oficial do Estado” ou informativo da SEE-SP. A matéria ainda não perde a oportunidade de atacar sutilmente os professores ao citar a meritocracia segundo o entendimento da SEE-SP e punição via o não-pagamento de bônus a partir das faltas dos docentes: “Pelo programa, o professor que consegue que seu aluno tire uma nota mais alta na prova aplicada pela secretaria recebe bônus salarial. E, como o valor está ligado também à presença, às faltas seriam coibidas - são 12 mil diárias na rede”. E assim se pauta o jornalismo “crítico” da Big Mídia!



Sem maiores ilusões, a verdade é tingida da cor de cada versão. O jornalismo canalha salientado por Arbex Jr. utiliza-se seu portfólio para dirimir uma versão que não prima pela clareza ou honestidade dos fatos. A guerra de informações é travada de forma monstruosamente desproporcional na mídia brasileira. A Big Mídia monopoliza todo o acesso a informação, além de sua divulgação e distribuição. As incipientes e isoladas mídias possuem um poder muito pequeno de participação neste processo, mesmo apelando para distribuições alternativas de conteúdos, como pequenos jornais de curta duração e baixa tiragem ou sites de internet. A saída para o impasse e dominação da Big Mídia não é trivial. Passa necessariamente pelo escancaramento da liberdade de acesso a informação e de grupos jornalísticos mais comprometidos com as causas sociais e menos aos vícios do poder do capital. Tal processo é lento e de difícil execução uma vez que de acordo com seus interesses de mercado e poder, a Big Mídia é uma das mais vorazes patrocinadores das campanhas eleitorais ao ponto de expor explicitamente nomes de candidatos, programas e idéias para a população.



De forma romântica, ainda há aos que acreditam no poder de livre-arbítrio da população como um conjunto hegemônico e autocrítico. Todavia, a hipermodernidade que desenha as cores exóticas da sociedade do consumo é um paradoxo permanente, quanto maior o oceano inflado de informações, menor é a capacidade de construção do conhecimento autônomo e reflexivo. A resistência se dará necessariamente através de um conjunto de mídias independentes e de ações coordenadas disposta a duelar exaustivamente contra este processo avassalador de monopólio da informação. Novas práticas devem surgir como forma de construção de um contra-poder que prime pela defesa dos movimentos sociais e da própria idéia de democracia como um bem de valor universal para uma sociedade justa, igualitária e livre das amarras do despotismo econômico.

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